James Castro

O balde furado, por que 8 em cada 10 famílias não conseguem sair do endividamento

Em julho deste ano, o Brasil bateu mais um recorde, e não é do tipo que se comemora. 82% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). É o sexto mês consecutivo batendo recorde histórico desde o início da série em 2010.

Pare um instante e pense no que esse número significa. De cada 10 famílias que você conhece, mais de 8 estão devendo. Cartão de crédito, financiamento, cheque especial, empréstimo pessoal, consignado. Não estamos falando de uma minoria com problemas financeiros. Estamos falando da regra, não da exceção.

E os números pioram quando olhamos mais fundo. 29,8% das famílias têm dívidas em atraso. A parcela média da renda comprometida com dívidas chegou a 29,5%. E o mais preocupante, o tempo médio de comprometimento com dívidas está em 7,2 meses. Ou seja, praticamente metade do ano as famílias estão devendo.

Esse artigo não é para julgar quem está nessa situação. É para ajudar. Pois por mais difícil que pareça, existe um caminho para sair.

 

O balde furado

Eu costumo usar uma comparação que ajuda muito as pessoas a entenderem a própria situação financeira. Sua vida financeira é como um balde de água.

Você trabalha o mês inteiro e o salário é a água que entra no balde. Idealmente, no final do mês, o balde deveria ter um pouco mais de água do que no início. Esse excedente é o que permite poupar, investir, construir patrimônio.

Contudo, se o balde tem furos, não importa quanta água você coloca. Ela escapa pelos buracos antes de você conseguir aproveitar.

Endividamento mal gerenciado é o maior furo de todos. Você pode ganhar bem, ter uma renda acima da média, e mesmo assim viver no aperto. Porque tudo que entra vai embora pelos furos das parcelas, dos juros do cartão, do cheque especial, dos empréstimos antigos.

Portanto, a primeira regra para qualquer pessoa que quer melhorar a vida financeira é simples. Não adianta colocar mais água no balde se você não consertar os furos primeiro.

O cartão de crédito como vilão

Alias, a pesquisa da CNC revela algo que reflete o que vejo todos os dias nas minhas consultorias aqui em Brasília. O cartão de crédito é a forma de endividamento mais presente, citado por 85% das famílias endividadas.

Além disso, o cartão tem uma característica que poucos param para pensar. Os juros do rotativo do cartão são os mais altos do mercado brasileiro, podendo passar de 400% ao ano em alguns casos. Para você ter uma ideia da dimensão, se você fica devendo R$ 1.000 no rotativo do cartão, em 12 meses essa dívida pode ter virado mais de R$ 5.000.

Não é exagero dizer que o cartão de crédito mal usado é uma das ferramentas mais eficientes de destruição patrimonial que existe no Brasil. E o pior é que ele se apresenta como algo conveniente, prático, até desejável. Esconde a armadilha por trás de programas de pontos e prazos para pagamento.

Eu defendo que qualquer pessoa que quer melhorar suas finanças precisa, antes de qualquer outra coisa, resolver a relação com o cartão de crédito. Não pagar a fatura integral todo mês é o primeiro passo para um buraco que cresce muito rápido.

O diagnóstico antes de qualquer plano

Quando alguém me procura em situação de endividamento, o primeiro passo nunca é falar de investimento, de aposentadoria, de futuro. É fazer um diagnóstico honesto da situação atual.

Esse diagnóstico tem duas partes.

Em primeira lugar, a primeira parte é mapear todas as dívidas. Quanto se deve, para quem, com qual taxa de juros, com qual prazo, com qual parcela mensal. Parece básico, mas a maioria das pessoas que está endividada nunca parou para listar tudo em um único lugar. Com isso, vive no piloto automático, pagando o que vence, sem ter ideia do tamanho real do buraco.

A segunda parte é mapear as receitas e despesas da família. Tudo que entra, tudo que sai. Aqui é onde a maioria das pessoas tem surpresas desagradáveis. Aquele streaming que ninguém usa mais. Aquela mensalidade de academia que virou cobrança automática. Aquela taxa que o banco cobra todo mês e você nem saber o por quê.  Aquele restaurante de toda sexta. Pequenos valores que somados representam muito.

A intenção desse mapeamento nunca é cortar tudo e viver de pão com água. É identificar onde está havendo fuga de dinheiro sem retorno. Onde estão os furos do balde.

Reorganizando o balde

Depois do diagnóstico vem a parte de reorganizar a estrutura financeira. E aqui existem três frentes para trabalhar simultaneamente.

A primeira frente é cortar gastos não essenciais. Não estou falando de cortar prazer da vida. Estou falando de identificar despesas que não estão te servindo. Assinatura que você esqueceu que tinha. Conveniências que custam caro e poderiam ser substituídas. Compras por impulso que acontecem todo mês. Esse exercício costuma liberar entre 10% e 20% da renda em quase todos os casos que acompanho.

Em segunda lugar, a segunda frente é renegociar as dívidas existentes. Praticamente todo banco e todo credor preferem receber menos do que não receber nada. Existem programas oficiais de renegociação, como o Desenrola Brasil, e existem renegociações diretas com as instituições. Reduzir juros, alongar prazos, dar desconto para quitação à vista. Tudo isso é negociável.

Por fim, a terceira frente, talvez a mais inteligente, é trocar dívida cara por dívida barata. Por exemplo, se você tem uma dívida de R$ 10.000 no cartão de crédito pagando 15% ao mês, e consegue um crédito consignado pagando 2% ao mês para quitar essa dívida do cartão, você acabou de mudar drasticamente sua realidade. Continua devendo, mas a uma taxa que é viável de pagar.

Isso é o que chamamos de portabilidade de crédito. Pegar uma dívida com juros altos e transferi-la para uma modalidade com juros mais baixos. Faz uma diferença gigantesca no orçamento mensal.

A virada de chave

Com o diagnóstico feito, os gastos ajustados e as dívidas renegociadas, começa a sobrar dinheiro no final do mês. E esse momento é crucial.

A tentação natural é usar essa sobra para melhorar o padrão de vida. Voltar a comer fora com mais frequência, comprar coisas que estavam adiadas, viajar. Não é errado fazer isso eventualmente, mas se esse for o uso principal da sobra, você simplesmente vai voltar a furar o balde.

Por outro lado, o caminho inteligente é diferente. Em primeiro lugar, acelerar a quitação das dívidas restantes. Mesmo que você já tenha renegociado para juros mais baixos, ainda está pagando juros que poderiam estar trabalhando a seu favor. Quanto mais rápido quitar, melhor.

Segundo, construir uma reserva de emergência. Geralmente 6 meses de despesas guardadas em algum investimento de liquidez imediata, como Tesouro Selic. Isso é o que vai te impedir de cair em novo endividamento na próxima emergência da vida.

Terceiro, e só depois desses dois passos, começar a investir para construir patrimônio de verdade. Aí sim você pode olhar para Tesouro IPCA, fundos imobiliários, ações, sempre dentro de uma estratégia que faça sentido para seus objetivos.

A coisa mais importante de tudo

Existe uma diferença fundamental entre quem sai do endividamento e nunca mais volta, e quem sai e logo volta para o mesmo lugar. Essa diferença não está no salário, no conhecimento técnico ou na sorte. Está em mudar a relação que você tem com o dinheiro.

Eu observo que as pessoas que verdadeiramente saem do ciclo do endividamento desenvolvem três hábitos.

O primeiro hábito é viver com menos do que ganha. Não importa se você ganha R$ 3.000 ou R$ 30.000. Se você gasta tudo, ou pior, gasta mais do que ganha, vai estar sempre na mesma situação. Construir patrimônio começa por gastar menos do que se ganha. Sem exceção. Uma dica é poupar antes de gastar, ou seja, separar um percentual ou valor da sua renda para guardar, para seu eu futuro ou para objetivos.

O segundo hábito é se planejar antes de comprar. Compras grandes deixam de ser por impulso. Você pensa, pesquisa, espera para ter certeza. E quando compra, faz isso à vista ou em condições que cabem confortavelmente no orçamento.

O terceiro hábito é entender que dinheiro é uma ferramenta, não um fim. Ele serve para construir a vida que você quer, não para definir quem você é. Quando essa relação fica saudável, tudo muda.

O primeiro passo é agora

Se você se identificou com alguma parte deste artigo, se está entre os 82% das famílias endividadas, saiba que não está sozinho. E mais importante, saiba que existe um caminho de saída.

Esse caminho começa hoje, com uma decisão simples. Pegar papel e caneta, ou abrir uma planilha, e listar todas as suas dívidas. Quanto, para quem, a que juros, com qual parcela. Só isso. Esse exercício, por mais simples que pareça, é o primeiro passo concreto para sair do balde furado. É enxergar a sua situação atual.

Depois disso, vem o mapeamento das receitas e despesas. Em seguida a reorganização. Após disso, vem a  renegociação. É um processo, não um milagre. Mas é um processo que funciona, e que já tirou muita gente do buraco e colocou em rota de construção patrimonial.

Comenta no instagram. Qual o maior desafio financeiro da sua família hoje? E se você sente que precisa de ajuda para fazer esse diagnóstico, organizar as finanças e traçar um plano real para sair do endividamento e começar a construir patrimônio, entre em contato. Posso te ajudar a transformar essa situação, com método.

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Sobre o Colunista

James Castro
Planejador financeiro
Sócio da Triestor Investimentos e especialista certificado CEA, cuido do patrimônio de empresários, médicos e profissionais liberais em Brasília. Defendo que fortuna nenhuma nasce de uma tacada genial: nasce de boas decisões pequenas, repetidas por anos e protegidas pela diversificação no exterior.

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