A eleição de 4 de outubro reconduziu 17 dos 20 distritais que tentaram a reeleição, fortaleceu a direita bolsonarista e premiou o voto de opinião nas pontas do espectro. Dessa forma, quem governar o DF a partir de 2027 terá uma Câmara Legislativa parecida com a atual, mas com mais votos e mais recursos.
A eleição para a Câmara Legislativa do Distrito Federal mudou pouco a composição da Casa, diferente do que havia acontecido em 2022, quando metade das cadeiras haviam sido substituídas. Dos deputados que buscaram novo mandato, 75 % foram reconduzidos. A maioria saiu das urnas maior do que entrou.
O peso do mandato
Para quem já está na Casa, os números de 2026 são expressivos. Em destaque, fica o deputado Max Maciel (PSOL), que, com os 92.234 votos recebidos (5,43% dos votos válidos), além de mais que dobrar sua base e o registro do último recorde, ele também foi o único a superar sozinho o quociente eleitoral, definido em cerca de 70,8 mil. Veja os demais que melhor performaram nesta eleição:
| Deputado | 2022 | 2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Max Maciel (PSOL) | 35.758 | 92.234 | +158% |
| Gabriel Magno (PT) | 18.063 | 42.331 | +134% |
| Eduardo Pedrosa (União) | 22.489 | 50.833 | +126% |
| Joaquim Roriz Neto (PL) | 21.057 | 45.604 | +117% |
| Pepa (PP) | 15.393 | 29.786 | +94% |
| Roosevelt Vilela (PL) | 20.223 | 39.181 | +94% |
O total de votos válidos quase não mudou. O quociente eleitoral passou de cerca de 69,3 mil para 70,8 mil votos. O crescimento desses deputados veio da concentração do voto em quem já tinha mandato, e não de um eleitorado maior.
Um dado ajuda a entender o fenômeno: em 2026, cada distrital pôde indicar R$ 34,5 milhões em emendas, 38% a mais que em 2023. Somadas, as emendas chegam a R$ 828 milhões, o maior volume da história da CLDF. Os números não provam que a emenda gera o voto, porém mostram que a estrutura do mandato virou uma vantagem difícil de superar para quem tenta entrar.
Os extremos crescem
O resultado também mostra o avanço do voto de opinião, que puxa para as pontas.
À esquerda, o PSOL e PSB saem como a grande força. Max Maciel fez 92.234 votos, recorde da Casa, e a sobra de votos dele ajudou a legenda a eleger a estreante Keka Bagno, que teve 40.569 votos. No PSB, a surpresa foi Múcio. Servidor da CLDF, ele ficou na suplência em 2022, com 9.956 votos. Agora quadruplicou a votação, chegou a 42.769 e foi o sexto mais votado do DF, à frente de diversos deputados com mandato. Com ele e a reeleição de Dayse Amarilio, o PSB dobra a bancada, de uma para duas cadeiras. Fábio Felix deixa a CLDF como o deputado federal mais votado da história do DF, com 224.224 votos. Somados, PT, PSOL e PSB passam de seis para sete cadeiras.
À direita, o PL vira a maior bancada, com cinco deputados, repetindo o número de 2022. O partido também ficou com as duas vagas do Senado, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. A nova direita digital teve votações notáveis. A influenciadora Estefane Sampaio (Republicanos), de 25 anos, fez 45.558 votos. Victor Jansen (PL), também de 25 anos e em sua primeira eleição, fez 32.120. Jansen superou André Kubitschek, bisneto de JK, que declarou R$ 13,3 milhões em patrimônio e somou 23.683 votos.
O centro perde espaço. O MDB, partido do ex-governador Ibaneis Rocha, cai de cinco para três cadeiras. Doutora Jane (Republicanos), Iolando (MDB) e Jorge Vianna (Democrata) foram os únicos distritais a perder a reeleição.
Uma renovação de dentro do governo
Sete eleitos não têm mandato atualmente na Casa. Três deles saíram diretamente do primeiro escalão do GDF: André Kubitschek, bisneto de Juscelino e filho de Paulo Octávio, que ocupou a cadeira da Secretaria de Juventude; Renata D’Aguiar, da Subsecretaria da Mulher; e Rôney Nemer, que vem do Ibram e volta à CLDF após três mandatos fora. Uma parte relevante da renovação, portanto, veio da própria máquina do Executivo.
A presença feminina sobe pouco: de quatro para cinco deputadas em 24 cadeiras.
Os que buscaram outros voos
Quatro distritais trocaram a reeleição por outros cargos. Vão para a Câmara dos Deputados, os ex-distritais Fábio Felix (PSOL) e Thiago Manzoni (PL), este com 90.418 votos, o quarto mais votado do DF. Daniel Donizet (MDB) ficou como suplente a deputado federal, com 12.445 votos. Paula Belmonte (PSDB) terminou em terceiro na disputa pelo governo, com 8,51%.
O que vem pela frente
A nova composição da Câmara pesa no segundo turno entre Celina Leão (PP) e Leandro Grass (PT), marcado para 25 de outubro. Os partidos que hoje dão sustentação a Celina somam 17 das 24 cadeiras. A esquerda tem sete.
- Se Celina vencer: terá maioria para governar, mas precisará administrar dissidências internas, como as de João Cardoso (PL) e Rogério Morro da Cruz (PSD), que votaram contra o governo em matérias importantes nesta legislatura.
- Se Grass virar: assumirá diante de uma Casa majoritariamente adversária. A conta é difícil. Celina ficou a 0,07 ponto de vencer no primeiro turno, correspondente a 168 votos, e Grass, que teve 34,47% contra os 49,93% de Celina, precisaria reunir praticamente todos os votos de Paula Belmonte (8,51%), Kiko Caputo (4,36%) e Ricardo Cappelli (2,23%).
Dentro da Casa, duas disputas já se desenham:
- Mesa Diretora: a eleição para o biênio 2027–2028 vai testar a liderança de Wellington Luiz (MDB), reeleito, diante de um MDB encolhido e de um PL que chega como maior bancada.
- Oposição: com a saída de Fábio Felix, Max Maciel herda, com votação recorde, o papel de principal voz da oposição.
O recado das urnas é claro: na CLDF, o mandato continua sendo o principal ativo eleitoral, e quem tem mandato e recursos para emendas segue com vantagem sobre quem tenta entrar.











